14 de agosto de 2018

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De onde surgem os unicórnios?

Hoje podemos sair na rua e sermos bombardeados por imagens de unicórnio, cores de tons pastéis e que remetem às cores do arco-íris, etc. A título de exemplo, quando analisadas as tendências em cores que são tendência atualmente, por exemplo, as cores que obtemos no Behance são estas:

Ao mesmo tempo, pessoas estão tingindo seus cabelos com cores similares:

cabelo

Até os alimentos que estamos consumindo possuem esse mesmo padrão de cores:

cupcake

Tendência ou moda?

Quando analisamos moda e cultura pop, temos que levar alguns elementos em consideração. Uma moda se estabelece quando o interesse cultural da sociedade está alinhado com o espírito de ideias e crenças momentâneas da sociedade. Em seguida, essa moda deve ser interessante o suficiente para deslanchar nas mídias sociais. O que define uma moda é o fato de estar relacionada às ideias e crenças momentâneas, o que faz com que seja algo passageiro. Do outro lado, uma tendência é construída quando movimentos culturais tomam força e são replicados pelas mídias sociais, mas diferentemente de modas, tendem a perdurar durante um tempo maior e acaba sendo um influenciador a longo termo do mercado.

Voltando ao tema do unicórnio, a temática não é nova. Vale lembrar que essa figura mítica foi utilizada em outros tempos para se referir a diversas questões, sendo a primeira vez, provavelmente, utilizada por Ctesias no livro “Indica” no século 5 A.C.

No entanto, recentemente, a partir do texto “Bem vindo ao clube dos Unicórnios” publicado no site TechCrunch e escrito por Aileen Lee em novembro de 2013, o termo passou a ser utilizado pela mídia em geral novamente. Como o TechCrunch é um dos principais veículos da mídia startup, logo o termo que ela utilizou para fazer referência às empresas de tecnologia baseadas nos Estados Unidos fundadas a partir de 2013 e que são avaliadas a um valor superior a 1 bilhão de dólares de acordo com investidores privados ou na bolsa de valores, tomou força dentro dessa cultura. Fortaleceu novamente a moda unicórnio.

Seguindo a linha dos critérios elencados anteriormente para definir uma moda, houve uma primeira adoção pelos veículos de mídia e pessoas ligadas a essa cultura local e isso se expandiu para outras pessoas ligadas aos negócios do Vale do Silício. São elas os empreendedores, investidores, mídias relacionadas, dentre outros. Neste caso específico, temos pessoas inclusive de renome endossando o uso do termo, ao invés de apenas uma classe social específica nos costumes ou modas da sociedade.

Recentemente, vimos que a cultura do Vale do Silício também se tornou moda no ambiente de negócios, bastante estimulada pelos altos valores envolvidos nas transações relativas às startups que são sempre motivo de manchetes na mídia. Como consequência, CEOs de grandes empresas viajam em missões para o Vale do Silício, por exemplo, e o livro de Eric Ries no qual foi desenvolvido o conceito de “MVP” se tornou best seller, pois agora todos querem se comportar como startups.

Ao mesmo tempo, diversas pessoas viajam para São Francisco e são impactadas por produtos diversos atrelados a essa moda, justamente porque muitos querem saber o que aconteceu com o Vale do Silício para se tornar o lar dos “unicórnios” – ou seja, como aquele local conseguiu produzir empresas tão bem sucedidas, que representam a 4ª revolução industrial, a transformação digital, a inovação e o futuro dos negócios. Essa moda depois se expandiu para outras localidades: lares de quem teve contato com o Vale do Silício, onde também há outros turistas. Dessa maneira, além da mídia disseminando essa informação, as próprias pessoas que de alguma forma fazem parte dessa cultura disseminaram esse ícone para outros lugares.

Dentro dessa perspectiva, pessoas ligadas ao ecossistema de inovação e startups no mundo inteiro passaram a fazer referência ao termo unicórnio, pois todos eles têm como aspiração o Vale do Silício ou, de alguma forma, têm contato com a cultura de lá. Além disso, os produtos e serviços consumidos nos smartphones ou sites que as pessoas acessam também são originários dessa região.

O fato de uma startup se tornar uma empresa avaliada em 1 bilhão de dólares na época em que Aileen Lee cunhou o termo era algo inesperado, único e criava esperança para todos que criam startups, passando a ser algo aspiracional. Hoje já se usa o derivado decacórnio (startups avaliadas em mais de 10 Bi USD) e  recentemente passou-se a utilizar o termo “dragão” (referência a startups que trazem retornos acima de 1 Bi USD). A referência a animais não para por aí. A sociedade também passou a adotar o termo “baleia” para se referir aos grandes investidores em criptomoedas.

O uso do termo unicórnio para qualificar uma startup se tornou uma forma de reconhecimento do esforço dos empreendedores que vivem na cultura derivada do Vale do Silício. A partir de então, todos passam a querer ser unicórnios (no sentido figurado, no sentido de que as startups querem se tornar unicórnios, todo empreendedor quer gerar um negócio que seja classificado como unicórnio). De novo, trata-se de algo aspiracional. Isso então passa a ser propagado dentro das empresas, onde existem inúmeros funcionários, entre investidores e seus conselheiros (advisors). Esse é outro motivo para a cultura unicórnio se transmitir de forma muito forte entre essas pessoas.

As inconsistências das tentativas de explicações mais comuns

Apesar disso, existem posicionamentos diversos que fazem referência a estudos falando sobre os tempos obscuros em que vivemos atualmente e como o unicórnio pode representar uma esperança ou fuga disso ou uma busca pela infância, como os tons pasteis neon estão agora ligados a essa figura, como as pessoas querem ser únicas e, tudo isso, leva a uma customização do consumo, dentre outras teorias para explicar a moda unicórnio. No entanto, essas referências não explicam porque exatamente, neste momento, o unicórnio torna-se um elemento da cultura pop e nem de onde veio, de onde surgiu. Por conta disso, não acredito que essas teorias sejam capazes de explicar o ressurgimento da temática com tamanha força e tampouco a disseminação que ocorreu aos poucos partindo de “early adopters” que eram pessoas ligadas a tecnologia e depois adotado pela cultura mainstream.

É importante notar que a maioria das pessoas ligadas a essa moda são millenials e a geração Z. Essas pessoas estão muito mais ligadas na cultura pop, estão indo trabalhar em startups ao invés de empresas tradicionais, utilizam muito mais os smartphones (onde os aplicativos criados por startups estão instalados, o que garante uma capilaridade enorme), além de estarem sempre buscando ideais e valores diferentes – o que também explica alguns dos valores que estudiosos e a mídia tentam atribuir ao fenômeno, mas que não explicam o porquê do uso do unicórnio como símbolo desses valores e tampouco o ressurgimento do uso dele.

As cores do unicórnio

Embora não seja comprovado, pode-se especular que as próprias cores utilizadas nos unicórnios na atualidade também são cores relacionadas ao arco-íris, sendo este reconhecidamente um símbolo do movimento gay. O Vale do Silício, localizado na cidade de São Francisco, uma cidade reconhecidamente ligada à causa, é justamente o local onde o termo “unicórnio” surge. Este é mais um elemento que reforça essa noção de que de fato o ressurgimento desse ícone pode estar atrelado a Aileen Lee que primeiro fez a referência ao ser mítico nos tempos modernos e que, ao mesmo tempo, fez essa referência em um canal de mídia lido por milhares de pessoas influentes no segmento tech.Vale lembrar, ainda, que as comidas ligadas às “cores unicórnio” não iniciaram essa moda. Essa derivação surgiu apenas a partir da postagem de Adeline Waugh em junho de 2016. Três anos após o artigo publicado por Aileen Lee.

É importante notar que qualquer texto que busca falar sobre o surgimento do termo “unicórnio” geralmente apenas menciona o brinquedo e o filme My Little Pony, comidas com cores de tons pastéis, produtos e brinquedos que foram lançados com o tema unicórnio, etc. Portanto, não há explicação do surgimento da moda unicórnio.  Além disso, mencionam os diversos significados que a figura mítica pode ter (escapismo, castidade, diferenciação e raridade, por exemplo), mas não explicam de fato o que ocorreu cronologicamente e quem iniciou o uso do termo e porque o mesmo estaria tão relacionado a esses ideais, se isso nunca ocorreu antes. Por que seria plausível, por exemplo, assumir que o unicórnio representa um sinal de virilidade, esperança, escapismo ou qualquer outro, senão por uma interpretação que queremos dar para este símbolo? Portanto, esses textos fazem apenas referências de maneira bastante superficial.

Consolidação da moda unicórnio

Desde o ano de 2013, a moda teve tempo suficiente para se propagar de forma global. O público early adopter no Vale do Silício incorporou o termo ao vocabulário porque é leitor de um veículo midiático que costuma influenciar boa parte do mercado de startups que, por sua vez, é um mercado global e que impacta não só pessoas de classes sociais mais baixas, mas também as classes sociais mais altas relacionadas ao mercado financeiro (venture capitalists, private equity investors e, consequentemente, Wall Street). Ao mesmo tempo, essas pessoas estão ligadas à indústria do momento e que tem uma alta capilaridade por conta dos smartphones (onde são recebidas notificações, pushs, mailing etc).

A moda unicórnio atingiu, assim, pico em 2017, conforme demonstra o Google Trends:

Atingido seu pico, voltou à estabilidade. Deve-se reconhecer que, apesar da recente moda, a figura do unicórnio já era utilizada de tempos em tempos.

Atualmente, as pessoas inclusive já buscam substitutos para os unicórnios. Em 2017 e no começo de 2018, muitos apostaram que as sereias substituiriam o ícone anterior por conta da força que vinha tomando em posts no Instagram e nas comidas. No entanto, a moda da sereia ainda não conseguiu se propagar da mesma maneira que seu antecessor.

Erik Nybo

Head of Inspiration

Co-fundador da Edevo - Escola de Negócios, Inovação e Comportamento, Head de Inovação no Molina Advogados e advogado graduado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).